É melhor falar ou morrer?

 

(Call Me By Your Name, 2017)

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É melhor falar ou morrer?’ Essa pergunta, feita no início do filme Call Me by Your Name, é algo que frequentemente me atravessa. A história é contada pela perspectiva de Elio, um adolescente que vive com os pais no interior da Itália durante o verão de 1983. Quando Oliver, um estudante americano, chega para auxiliar nas pesquisas do pai de Elio, o vínculo entre os dois se transforma em uma experiência intensa de descoberta, desejo e silêncio.

Tal frase é dita pela mãe de Elio ao recitar um trecho de Heptameron, uma coletânea de contos do século XVI, escrita por Marguerite de Navarre, irmã do rei Francisco I da França. Na décima novela do primeiro dia do Heptameron, de Marguerite de Navarre, o jovem cavaleiro Amadour se apaixona por Floride, uma dama nobre. Consumido pelo sentimento que guarda em silêncio, ele se vê diante de um dilema e, em um momento de tensão, pergunta a ela: “O que vale mais: falar ou morrer?”. Floride responde com sabedoria, afirmando que prefere que ele fale, pois as palavras podem ser remediadas, enquanto a morte é definitiva.


(Call Me By You Name, 2017)

Em paralelo com o filme, essa frase atinge diretamente o personagem Elio. Ele vive esse embate íntimo: o medo da rejeição o faz hesitar, sufoca palavras e gestos, mas a intensidade do sentimento por Oliver quase o consome. A pergunta do Heptaméron reflete exatamente essa tensão universal entre se revelar e preservar-se no silêncio. Elio e Oliver vivem uma paixão intensa e contida. Apesar de a conexão entre eles ser gritante para quem assiste, ambos permanecem em silêncio por um bom tempo, evitando nomear o que sentem. Seus sentimentos, no entanto, estão presentes em cada gesto, olhar e pausa — pairam no ar de forma quase palpável. Essa escolha pelo silêncio, ainda que compreensível diante do medo e da incerteza, transforma o relacionamento em algo carregado de tensão e expectativa, revelando o quanto pode ser doloroso não dizer aquilo que já se sente tão fortemente. 

Particularmente, sob a perspectiva da psicologia, minha área de estudo, vejo o ato de falar como sendo sempre a melhor opção — e defendo isso a todo custo, mesmo quando os sentimentos e pensamentos estão tão confusos e sufocantes que se tornam difíceis de verbalizar. No contexto amoroso, como no filme, a decisão de falar ou não se relaciona diretamente com a expressão dos sentimentos. Falar pode trazer o risco da rejeição; não falar, por sua vez, deixa a angústia do “e se?”, a incerteza do que poderia ter sido. Permanecer em silêncio pode até oferecer uma falsa sensação de paz — a de não tocar em sentimentos profundos que, muitas vezes, tentamos evitar ou esconder para fugir do sofrimento. No entanto, aquilo que machuca continua ali, e essa paz, portanto, é passageira. Freud dizia que emoções não expressas jamais morrem; elas são enterradas vivas e ressurgem mais tarde de formas ainda piores. Ou seja, situações não enfrentadas tendem a nos corroer por dentro, e o sofrimento psíquico frequentemente se manifesta também em nosso corpo. O silêncio, a omissão, pode ter um custo muito alto — por isso, na maioria das vezes, enfrentar os riscos é melhor do que permanecer calado.


(Sigmund Freud, fundador da psicanálise)

Falar é, nesse sentido, um ato que fazemos por nós mesmos. Quando escolhemos nos expressar, não há garantias de acolhimento, compreensão ou reciprocidade — podemos ser ignorados, rejeitados ou até ridicularizados. Ainda assim, ao verbalizar o que sentimos, estamos sendo leais àquilo que habita dentro de nós. O gesto de colocar para fora o que nos atravessa é uma forma de respeitar nossa própria existência e autenticidade. Mesmo que o outro não nos valide, a simples atitude de falar já nos livra do peso da omissão. Não se trata de convencer ou ser aceito, mas de ser fiel a si mesmo.Por mais que doa, é através da fala que nos curamos. A fala é cura. A linguagem é um dos maiores dons da experiência humana — e por que não usá-la a nosso favor? Falar é libertar aquilo que nos sufoca por dentro, é reconhecer a própria dor e permitir que ela tenha um espaço no mundo. Quando damos voz ao que sentimos, ainda que não encontremos respostas, abrimos caminho para o alívio, para o recomeço e, acima de tudo, para a reconciliação com nós mesmos.

Negar ou silenciar emoções não as faz desaparecer — apenas adia o enfrentamento. Quando reconhecemos aquilo que sentimos e temos a coragem de expressar, somos leais a nós mesmos.



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